9.11.09


Colchão no chão,
copo de água ao lado,
um gole pra cada sonho
que depois de cada um desperto
na noite ativa do quarto
pulsando nos quatro cantos do meu colchão.
Um calor insuportável por dentro,
pensando que queria abraçar seringueiros
adormeço de novo.
Mas não é nada, só um corte de papel no dedo
latejando.
Não se preocupe comigo,
tenho meu colchão no chão, um ventilador
bem posicionado... essas coisas todas
que se precisa numa noite de verão.

13.9.09

"às vezes digo coisas ácidas e de alguma forma quero te fazer compreender que não é assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, e não se soluciona, mas volto e volto sempre, então me invades outra vez com o mesmo jogo e embora supondo conhecer as regras, me deixo tomar inteiro por tuas estranhas liturgias, a compactuar com teus medos que não decifro, a aceitá-los como um cão faminto aceita um osso descarnado, essas migalhas que me vais jogando entre as palavras e os pratos vazios"

Caio F.


Que quando estamos assim, de coração partido, vazio no peito, olhar sem rumo procurando sempre algum porto doentio...
Nada machuca mais e consola mais do que ler um pouco de Caio.

23.8.09

Que se a vida era minha, então eu não saberia o que dizer.
Entre um dia e outro, havia esse espaço de tempo inexistente bem antes do sol surgir no céu.
Eram momentos que não podem ser medidos em quantidade temporal, mas era um certo momento
em que no mundo só havia eu.
Não digo como se fosse grande coisa, não era.
Era apenas que naquele momento me dava conta de que afinal só tinha consciência certa de mim.
O resto do mundo todo eram apenas sensações efêmeras, as vezes somente prazeres visuais ou nem isso.
Aqui, de poder encostar, e sentir de ambos os lados da via ...só eu mesma.

E o que se faz consigo num momento como esse?
Bem, quase sempre passa tão rápido, que tão logo me dou conta de mim, tão logo já estou jogada no meio do mundo novamente.
E o sol surge, como havia de surgir, e mais um dia começa sem que eu saiba o que diabos devo fazer comigo.
Então, como que por hábito, me levanto, tomo banho e saio de casa...faço as coisas que supostamente deveria fazer,
e sinto as coisas que supostamente deveria sentir, e acabo existindo de um jeito ou de outro.
Mas as vezes também recebo uma benção, como que por acaso o momento dura um pouco mais do que deveria.
E nesse um pouco mais tenho a chance de pensar algo.
Porque sempre digo que só se pensa algo quando realmente temos tempo pra isso.

Então eu penso, que se por acaso, algum dia, eu pudesse escolher o que fazer de mim...
Eu provavelmente me entregaria para outrem se encarregar.
Porque por mais que me tocasse, ele nunca saberia como eu me sinto de volta...
e não sabendo isso, ele estaria protegido.

Protegido dessa explosão arrebatadora que sinto, toda vez que distraída toco em meu braço por exemplo...
e posso sentir ao mesmo tempo meu dedo em meu braço e meu braco em meu dedo...
tal sensação não têm similar.
E faz com que eu me sinta estupidamente especial.

30.7.09

em si.



Amar seria então, por fim, um instinto animal (irracional)
Que para chegar até o outro, teria eu que me livrar do que?
Roupas conceitos teto
Para te encontrar nua lisa pura
diante do sentimento indefesa... como um animal que contempla sua presa.
E a hora do ataque: luz.
da procura um encontro?
Há muito mais procura, depois do encontro.
Depois do suposto fim,
porque conviver com o fim é tão pior do que gerar o fim em si.

19.7.09

o lugar ao lado



Estar de repente sozinho em lugar novo,
me trás mais vontade de chorar
por todas as coisas que se perderam
E quem sabe também pelas coisas que ainda tenho, não
querendo ter.

'Eu queria ter uma bomba, um flit paralisante qualquer'

ser estrangeiro no meio dos velhos conhecidos,
querer ficar e mesmo assim ir junto com os ventos
os fluxos...seguindo qualquer carinho.
Brincar de viver é bom,
embora canse,
eu gosto,
eu provo o gosto
têm gosto de... uma coisa colada na outra
mas não sei se isso é bom

11.7.09

silênciando o coração parte 1

A primeira coisa que notei foi a janela da sala escancaradamente aberta e a chuva entrando forte, molhando o tapete, o sofá e uma estante com alguns porta-retratos.
Tinha feito um calor insuportável durante toda a tarde e ali ficou a janela aberta em busca de um ventinho qualquer. Quase como se fosse fazer calor durante meses
incessantemente e ela talvez até de tão aberta, nunca mais fechasse.
De noite, a típica chuva de verão veio.
Você tocou a campainha, entrou com um beijo curto e disse:
- Senta, a gente precisa conversar.
Juro que me deu uma vontade enorme de dizer:
- Depois da janta, depois do vinho, depois do sexo a gente conversa.
Mas os seus lábios contraídos diziam que depois de hoje não tinha mais depois nenhum.
O frango queimando no fogão, o vinho esquecido na mesa da sala, minha calcinha escondida ridiculamente embaixo da calça...
Pensava em coisas aleatórias, como no jogo do sério, olhando para o seu rosto e ainda assim me concentrando em outras mil coisas.

E quando acabou fiquei meio aérea, meio pensativa, como quem busca uma solução mas sem pressa.


Voltei ao agora ouvindo sua voz:
- Você entende? Me diz alguma coisa...
- Quando um não quer... dois não...
‘não’ o que mesmo?
Tinha esquecido o ditado, mas que merda.Creio que me acomodei, achando que no vasto dos outros seria mais fácil de caminhar.
Realmente não é. Existem essas regras estúpidas que você não aceita nunca.


- Quando é amor, a gente não espera chegar ao ponto em que a explosão se torna inevitável.
Eu te amo e você não acredita que mereça esse amor. Todo mundo mereçe um pouco de atenção, é o que eu penso.

Depois disso não disse mais nada, porque todo o resto que pensei veio à minha mente em grego,e eu definitivamente não entendo grego.

você foi embora, mesmo assim.
acendi um cigarro, e depois outro e depois outro até o maço ficar amassado, usado, jogado na lixeira em frente ao prédio. Não consigo
encontrar palavras para aqui escrever, porque todas as que pronunciei naquele dia
queimaram- se uma a uma, misturadas com a nicotina e a fumaça.
Se ao menos meus cigarros falassem, ah então eu poderia te contar tudo
ao pé do ouvido, aos berros, por telefone, mandando cartas até telepatia quem sabe.
Ia ser de um bem enorme te contar essas coisas, arrisco até a dizer que então, finalmente e irremediavelmente, seríamos...felizes.
Mas meus cigarros estão espalhados pelo caminho que percorri, pisados e destruídos como se de nada valessem e não dizem nada,
Absolutamente nada.

7.7.09

silênciando o coração parte 2

"Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontâneamente de mim.
Por que isso me era tão difícil?"

Demian - Hermann Hesse.

Sou bem egoísta a respeito de minhas lembranças,
raras vezes me sinto realmente confortável de dividí-las.
Porque sei que muitas vezes o que vejo é, somente para mim,
realidade.
Ah, se ao menos soubesse quantas lembranças criei de nós;
toda a vida que criei a partir de meus próprios dedos.
Acredito que seja medo.
Medo de receber a confirmação,
niguém estava lá, a vida não surgia diante de nossos olhos.
Guardo para mim porque ao menos assim a coisa está viva:
é uma sobrevida, bem sei.
Afinal quanto tempo faz que descobri que as lembranças só vivem
quando compartilhadas?
De outro modo, morrem conosco.
Talvez seja isso, a vontade de algo morra comigo...
brotava de mim e por isso me pertencia
sagrado e sujo.