A primeira coisa que notei foi a janela da sala escancaradamente aberta e a chuva entrando forte, molhando o tapete, o sofá e uma estante com alguns porta-retratos.
Tinha feito um calor insuportável durante toda a tarde e ali ficou a janela aberta em busca de um ventinho qualquer. Quase como se fosse fazer calor durante meses
incessantemente e ela talvez até de tão aberta, nunca mais fechasse.
De noite, a típica chuva de verão veio.
Você tocou a campainha, entrou com um beijo curto e disse:
- Senta, a gente precisa conversar.
Juro que me deu uma vontade enorme de dizer:
- Depois da janta, depois do vinho, depois do sexo a gente conversa.
Mas os seus lábios contraídos diziam que depois de hoje não tinha mais depois nenhum.
O frango queimando no fogão, o vinho esquecido na mesa da sala, minha calcinha escondida ridiculamente embaixo da calça...
Pensava em coisas aleatórias, como no jogo do sério, olhando para o seu rosto e ainda assim me concentrando em outras mil coisas.
E quando acabou fiquei meio aérea, meio pensativa, como quem busca uma solução mas sem pressa.
Voltei ao agora ouvindo sua voz:
- Você entende? Me diz alguma coisa...
- Quando um não quer... dois não...
‘não’ o que mesmo?
Tinha esquecido o ditado, mas que merda.Creio que me acomodei, achando que no vasto dos outros seria mais fácil de caminhar.
Realmente não é. Existem essas regras estúpidas que você não aceita nunca.
- Quando é amor, a gente não espera chegar ao ponto em que a explosão se torna inevitável.
Eu te amo e você não acredita que mereça esse amor. Todo mundo mereçe um pouco de atenção, é o que eu penso.
Depois disso não disse mais nada, porque todo o resto que pensei veio à minha mente em grego,e eu definitivamente não entendo grego.
você foi embora, mesmo assim.
acendi um cigarro, e depois outro e depois outro até o maço ficar amassado, usado, jogado na lixeira em frente ao prédio. Não consigo
encontrar palavras para aqui escrever, porque todas as que pronunciei naquele dia
queimaram- se uma a uma, misturadas com a nicotina e a fumaça.
Se ao menos meus cigarros falassem, ah então eu poderia te contar tudo
ao pé do ouvido, aos berros, por telefone, mandando cartas até telepatia quem sabe.
Ia ser de um bem enorme te contar essas coisas, arrisco até a dizer que então, finalmente e irremediavelmente, seríamos...felizes.
Mas meus cigarros estão espalhados pelo caminho que percorri, pisados e destruídos como se de nada valessem e não dizem nada,
Absolutamente nada.